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Pai de aluno suspenso em Sintra diz que filho partilhou lanche porque amigo tinha fome. Escola tem outra versão

Quarteto de alunos foi suspenso durante um dia por não ter respeitado as regras da pandemia na escola.
Correio da Manhã 16 de Outubro de 2020 às 17:27
Quatro alunos suspensos regressaram às aulas na Escola Básica Escultor Francisco dos Santos
Quatro alunos suspensos regressaram às aulas na Escola Básica Escultor Francisco dos Santos FOTO: Pedro Catarino

A história da partilha do lanche que valeu a suspensão de quatro alunos da Escola Básica Escultor Francisco dos Santos (antiga EB 2,3 de Fitares), em Rio de Mouro, Sintra, agitou as redes sociais nos últimos dias. Mas se inicialmente se disse que esta era uma partilha solidária com um aluno que tinha fome, a história parece ser, afinal, mais complexa.

É que ao que o CM apurou, os quatro alunos foram suspensos porque estavam a dar dentadas no mesmo pedaço de comida. Uma das regras do estabelecimento de ensino para evitar a propagação da Covid-19 impede a partilha do lanche, no caso de uma sandes e de um sumo. Ao que o CM apurou, os alunos terão antecedentes neste tipo de comportamentos e depois de vários avisos, a diretora optou por suspendê-los durante um dia.

"Quando estamos perante um ilícito disciplinar, aplicamos a lei, que, no caso, é o Estatuto do Aluno", explicou ao CM Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (Andaep), que ainda disse que "a colega teve a atitude correta diante dos factos".

De acordo com o Observador, na carta enviada pela diretora do agrupamento ao encarregado de educação, Cristina Frazão lembrou que o aluno é repetente e por não conhecer ninguém na nova turma acaba sempre por ir ter com os antigos colegas durante o intervalo. Apesar de ter sido avisado várias vezes para não o fazer e que não podia estar a comer sem máscara perto de um grupo de alunos, Cristina Frazão diz que ele "não mudou de atitude".

"O que eu vi, após ter este grupo de alunos já referenciado pelos professores e pelos funcionários, foi um quarteto de meninos, de turmas diferentes, juntos, sem máscara e a dar dentadas na comida uns dos outros. Não se trata de uma generosidade do seu filho em pagar uma sandes ao colega, que surpreendentemente ainda não teria comido nada às 16h30 da tarde, mas sim de estarem a dar dentadas no mesmo alimento", pode ler-se no documento.

Na mesma carta, Cristina Frazão lembra: "O cumprimento de simples regras de higiene e distanciamento são o que pedimos à geração do seu filho. O senhor fez hoje passar uma atitude irresponsável e de desrespeito pela escola toda, por um ato heróico. Os meus sinceros parabéns. As regras são claras. No documento divulgado no início do ano é referido quais as penalizações para o seu incumprimento".

Numa publicação feita no Facebook, Luis Santos Milagaia, pai do aluno de 12 anos que foi suspenso, criticou a ação da professora e disse que o filho só partilhou a sandes porque o colega estava com fome: "Um aluno de 12 anos foi severamente castigado por partilhar a sua sanduíche com o seu colega que lhe tinha confidenciado que ainda não tinha comido nada e estava com fome. Que tipo de professora é esta, que não viu o lado humano desta criança dando-lhe um dia de suspensão", escreveu.

Na carta ao encarregado de educação, a diretora do agrupamento diz que espera que as suas explicações sejam suficientes para que o pai do aluno "retire o seu post cheio de inverdades e que deu azo a que sem conhecerem os factos tantas pessoas venham encher o Facebook de ódio" e acrescentou: "Não gostam do meu trabalho? De 4 em 4 anos há eleições para diretor".

Em declarações à SIC, o pai do aluno voltou a repetir a versão que já tinha partilhado no seu Facebook: "Fiquei indignado com o castigo que ele levou porque um dia de suspensão a um aluno que partilhou o lanche é demasiado severo". "Ele conta-me, e eu acredito, que partilhou um bocado de pão porque o colega lhe disse que estava desde manhã com uma torrada no estômago".

Questionado sobre o facto deste aluno - e restantes colegas que também foram suspensos - já estar referenciado pelos professores e pelos funcionários por desobediência, Luis Santos Milagaia disse não saber dessa situação: "Que eu tenha conhecimento, foi a primeira vez, porque nunca tive recados na caderneta do aluno em como ele tenha furado regras ou partilhado lanches. Perguntei ao meu filho se isso era verdade e ele disse-me que esta foi a primeira vez que foi chamado à atenção".

O Ministério Público já está a acompanhar o caso.

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