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Cadeia de hospitais acusada de ocultar mortes Covid e testar comprimidos não comprovados

Grupo de médicos entregou dossiê de 10 mil páginas aos investigadores com alegações contra a Prevent Senior, no Brasil.
Correio da Manhã 30 de Setembro de 2021 às 18:01
Medicamentos
Medicamentos FOTO: Getty Images
Uma das maiores redes de saúde do Brasil, a Prevent Senior, foi acusada de encobrir mortes por Covid-19, pressionar os médicos a prescrever tratamentos ineficazes e testar medicamentos não comprovados em pacientes idosos. O objetivo era ajudar o governo brasileiro a resistir ao bloqueio total derivado da pandemia da Covid-19.

A organização de saúde, com uma vasta rede de hospitais e mais de meio milhão de membros, está a ser alvo de uma investigação, por parte do Congresso Nacional do Brasil, sobre a crise do coronavírus no país e a resposta altamente polémica do presidente Jair Bolsonaro à mesma, avançou o jornal The Guardian.

No mês passado, um grupo de médicos entregou aos investigadores um dossier de 10 mil páginas que continha acusações contra a empresa com sede em São Paulo. O dossier continha alegações de que pacientes idosos foram usados como "cobaias humanas" para testar "remédios" não comprovados contra a Covid-19.

Esta terça-feira, a advogada que representa os grupo de médicos que apresentaram a denúncia, Bruna Morato, teceu novas alegações sobre a investigação que está a decorrer na capital do Brasil, Brasília.

"Os médicos mais antigos da Prevent foram pressionados a dar aos pacientes um conjunto de drogas ineficazes, incluindo a hidroxicloroquina antimalárica e a ivermectina antiparasitária, o que ficou conhecido como "kit Covid". Acrescentando ainda que "a decisão de promover a hidroxicloroquina como um tratamento supostamente eficaz contra a Covid-19 foi um plano parcial para ajudar o governo, que supostamente queria usar essas informações para convencer os brasileiros de que não havia necessidade de ficar em casa durante a pandemia." 

"A economia não podia parar, então eles [o governo] precisavam de encontrar uma forma de dar esperança às pessoas que estavam a sair de casa para trabalhar. Essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina ", alegou Morato. "
O uso de tais medicamentos não comprovados também fazia parte de uma "estratégia de redução de custos" por parte da Prevent Senior. "É muito mais barato para uma rede de saúde disponibilizar certos medicamentos em vez de admitir pacientes", afirmou ainda Morato .

As mortes pelo novo coronavírus foram ocultadas para não comprometer os resultados dos testes Prevent Senior, supostamente elaborados para mostrar que os medicamentos do "kit Covid" eram eficazes contra a doença. "Isso é fraude", disse o vice-presidente do inquérito, Randolfe Rodrigues.

Os médicos da Prevent terão alegadamente recebido instruções para reduzir a administração de oxigénio para pacientes Covid internados em tratamento intensivo há mais de 10 ou 14 dias, constatou a investigação.

O que diz a Prevent Senior
Em nota, a Prevent Senior disse que repudia as "falsas acusações" e que sempre agiu consoante as normas legais. A empresa negou ter escondido mortes. "A Prevent Senior sempre respeitou a autonomia dos médicos e nunca demitiu funcionários por causa das suas convicções técnicas", disse a empresa.

As reivindicações geraram uma grande contestação no Brasil, onde cerca de 600 mil pessoas morreram por causa da pandemia do novo coronavírus.

Especialistas
Daniel Dourado, especialista em saúde pública e advogado da Universidade de São Paulo, disse: "Este é um escândalo sem precedentes no Brasil". 
Dourado falou sobre as denúncias contra a Prevent Senior que ainda precisam de ser esclarecidas, sendo necessária uma investigação policial.

"Se aconteceu o que está a ser alegado, é como dizer aos pacientes que eles não estavam a ser tratados pelos médicos à sua frente. [Que na verdade] esses médicos estavam a seguir um plano traçado por um escritório administrativo que foi motivado ou por redução de custos ... ou por objetivos políticos ", disse Chrystina Barros, membro da equipa de combate à Covid-19 da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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