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Saúde mental reforça vigilância e revela tendências de suicídio em Moçambique

"Devo ressalvar que nem todos os casos de tentativa de suicídio chegam às unidades de saúde", diz Wilza Fumo.
Lusa 2 de Outubro de 2021 às 10:36
Zambézia, Moçambique
Zambézia, Moçambique FOTO: Getty Images
O reforço dos serviços de saúde mental em Moçambique está a revelar a realidade sobre as tentativas de suicídio no país, um problema que afeta principalmente os adolescentes, com números preocupantes, disse à Lusa fonte do Ministério da Saúde.

"As tentativas sempre aconteceram, mas nós começámos a registá-las desde 2014. Também começámos a formar mais profissionais nesta área", capazes de detetar mortes cujas causas eram antes atribuídas a intoxicação, por exemplo, explica Wilza Fumo, chefe do Departamento de Saúde Mental no Ministério da Saúde, em entrevista à Lusa.

Como resultado, uma realidade encoberta começou a revelar-se: o número anual de tentativas de suicídio registadas pelas unidades de saúde em Moçambique passou de 263 casos em 2014 para 6500 em 2020.

"De ano para ano, as tentativas de suicídio vão aumentando", graças à capacidade de registar o que antes passava despercebido, mas também porque parece haver uma tendência nesse sentido, nota aquela responsável.

"Devo ressalvar que nem todos os casos de tentativa de suicídio chegam às unidades de saúde", acrescenta.

Entre as 11 províncias, a cidade de Maputo, a capital, teve a maior subida entre 2019 e 2020, passando de 1126 para 1937 casos anuais, respetivamente.

"Estes são os poucos casos que conseguem chegar às unidades de saúde", frisa Wilza Fumo.

Embora o plano nacional de prevenção de suicídios tenha sido adotado em 2015, a consciência sobre a importância da saúde mental em Moçambique ainda é fraca, havendo um número considerável de pessoas que só procuram assistência médica em casos extremos, principalmente no meio rural, refere.

Segundo Wilza Fumo, se, por um lado, a "secundarização" da saúde mental no meio da comunidade é um problema, a situação é mais complexa quando se nota que há casos de pessoas que tentam cometer suicídio, mas não procuram acompanhamento médico posteriormente.

"A nossa experiência mostra que, normalmente, as pessoas só procuram assistência médica quando a tentativa de suicídio é suficientemente grave. Isso é preocupante porque se a pessoa fez uma tentativa, a probabilidade de voltar a fazer outra é muito maior", declarou.

Para a chefe do Departamento de Saúde Mental no Ministério da Saúde, a resposta adequada para travar a tendência ascendente parte de uma abordagem multissetorial: uma estratégia que inclua a consciencialização no meio comunitário.

Na província de Inhambane, por exemplo, a secretaria de Estado provincial, em coordenação com o Ministério da Saúde, está a criar uma Comissão Multissetorial para Prevenir os Suicídios, na ambição de promover uma resposta concertada e consciencializar as comunidades para travar a tendência ascendente.

"Para conseguirmos abordar este problema, é necessária a intervenção de todos", frisou Wilza Fumo.

O relatório mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), datado de 2016, coloca Moçambique com uma taxa de 4,9 suicídios por cada 100 mil habitantes, mas com grandes reservas quanto à qualidade dos dados.

"O suicídio está entre as 20 principais causas de morte em todo o mundo, superando outras causas, como malária, cancro da mama ou guerra e homicídio", sendo que "perto de 800.000 pessoas morrem por suicídio a cada ano", refere a OMS.

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