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Correio da Manhã

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Retratos de amores que matam

Violência doméstica é tema de exposição.
Vanessa Fidalgo 13 de Setembro de 2015 às 10:30
João Francisco Vilhena tem 50 anos
João Francisco Vilhena tem 50 anos FOTO: João Miguel Rodrigues

‘O Amor Mata’  cada vez mais e inexplicavelmente. Talvez por isso, o tema da violência doméstica deu origem a uma exposição do fotojornalista João Francisco Vilhena, que no próximo dia 17 chega à Galeria das Salgadeiras, no Bairro Alto, em Lisboa.


Mas esta podia ser também a história de como uma notícia de jornal pode pôr muita coisa em causa e transfigurar tudo aquilo que julgávamos conhecer sobre um sentimento. "Foi há oito anos que nasceu esta ideia, ao ler uma notícia que julgo até ter sido do Correio da Manhã, sobre um homem que tinha matado a mulher a tiro por tédio. Só por isso... estava entediado! A ideia de que alguém pode pegar na primeira coisa que está à mão e acabar com a vida de alguém só porque se sente entediado desnorteou--me. É olhar para um ser humano como se fosse um objeto, um pertence, ao qual se pode fazer tudo o que nos apetecer e inexplicavelmente esse alguém ser aquele que se ama ou amou…", explica o autor, o fotógrafo João Francisco Vilhena. 


Com as palavras da notícia entaladas na garganta, João Francisco Vilhena dedicou então os oito anos seguintes a recolher histórias barbaramente semelhantes na imprensa e paralelamente envolveu-se em trabalhos académicos sobre o tema, como a tese ‘Homicídio Conjugal em Portugal’, da deputada e socióloga Elza Pais.


TODAS AS 'MARIAS'

Os meandros de vidas (e mortes) que é difícil compreender e aceitar forneceram-lhe um arquivo de referências que estão, agora, materializados nesta exposição: dípticos com fotografias de objetos usados pelos agressores e de cruzes de pedra que representam, de forma simbólica, as mulheres que devido a eles perderam a vida. Cada um dos oito trabalhos da exposição – fotos de pequeno formato – tem o nome de uma mulher. "Provavelmente conheço todas estas histórias de fio a pavio, com todos os seus nomes reais. Mas o nome de cada trabalho não corresponde exatamente à mulher ‘X’ ou ‘Y’. A ‘Maria’, a ‘Leonor’, a ‘Antónia’ representam, isso sim, todas as outras ‘Marias’ que também perderam a vida pela mesma razão fútil."


"Não as vemos de forma concreta. Mas sentimo-las, representadas de forma abstrata, numa experiência de forte cariz estético, da desconstrução da vítima à construção do predador", acrescenta o autor, que nasceu em Lisboa, há 50 anos.


A ideia é obrigar o espectador a pensar mais profundamente sobre tudo aquilo que o amor é e, especialmente, sobre tudo aquilo que não deveria ser. E, nesse sentido, o retrato dos objetos usados para matar assume particular relevo. "Há uma pistola, umas mãos, uma faca, um
martelo, veneno, fogo…  objetos que até têm uma extraordinária e singular beleza, um poder de sedução, até, mas que na mesma proporção encerram também o lado perverso, o poder de matar." As mulheres são representadas pelas cruzes, convocando igualmente a sensação de tudo o que fica depois da morte: "a solidão, o vazio, o silêncio".


Por isso, o trabalho de exploração e dramatização da luz foi fundamental: "para perceber como aquele objeto, com aquela luz, pode contar da melhor forma aquela história horrível…"


O BATER DO CORAÇÃO

Além dos dípticos, a exposição da Galeria das Salgadeiras, em pleno coração do  Bairro Alto, reserva para o fim uma instalação imagética, sonora e textual em torno do coração como símbolo do amor, numa representação abstrata da mulher e do fundo de todos nós.


"Resultou de uma ressonância magnética que fiz por acaso ao meu próprio coração, que resolvi utilizar, e de um texto meu. Depois, ouve-se o som do coração, que é o som mais belo e tocante que pode haver…", revela o fotojornalista, que colaborou com diversos jornais e revistas e foi editor fotográfico dos semanários ‘O Independente’ e ‘Sol’, bem como diretor de arte da ‘Tabacaria’ – a revista literária da Casa Fernando Pessoa.

Desde 1997, João Francisco Vilhena tem realizado diversas exposições individuais e coletivas em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente Frankfurt, Estocolmo, Barcelona, Dublin, Istambul, Nova Iorque, Sevilha e Santiago do Chile, além de ter publicado, desde 1991, doze livros da sua autoria ou em coautoria com outros artistas.


Esta incursão pela faceta mais crua das realidades sociais, porém, é inédita. "Nunca me tinha debruçado sobre um tema assim forte e atual. O meu trabalho esteve sempre mais ligado às viagens e à literatura, porque sempre trabalhei muito com escritores. Mas paralelamente fui desenvolvendo os meus projetos mais íntimos e pessoais, como este, mas nunca sobre uma questão tão real e violenta. Curiosamente, o meu próximo projeto também será nesta linha…"


A exposição insere-se na 6ª edição do Bairro das Artes — a Rentrée Cultural da Sétima Colina de Lisboa – e tem o apoio das associações UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima) e CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género) na divulgação. A inauguração acontece já no próximo dia 17.
exposição violência doméstica fotografia joão francisco vilhena
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