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Correio da Manhã

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Está tudo a bater certo com o Festival da Canção

Conan Osíris é um fenómeno que primeiro se estranha e depois entranha-se, mostrando a direção de uma nova era musical.
Vanessa Fidalgo 12 de Março de 2019 às 19:45
Conan Osíris
Conan Osíris vai representar Portugal no Festival da Eurovisão em Telavive, Israel
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Conan Osíris vai representar Portugal no Festival da Eurovisão em Telavive, Israel
Conan Osíris vai levar 'Telemóveis' a Israel para o Festival da Eurovisão
Conan Osíris
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A vitória de Conan Osíris pode até ter sido uma inquietante surpresa para quem não andava a par e passo com as novidades da música portuguesa mas, para os entendidos, reflete não só um novo movimento de música urbana como a lógica de mudança que o Festival RTP da Canção atravessa.

Do artefacto dourado da cara, criado pela joalheira e amiga Adriana Ribeiro, às roupas do estilista Rúben de Sá Osório, passando pela eletrónica com laivos de música árabe e africana ou pelo amor ao telemóvel, afinal, nele, tudo faz sentido.

Essa é mesmo a opinião de João Carlos Callixto, investigador musical e autor de programas radiofónicos e televisivos, membro do júri de sala do Festival RTP da Canção e autor do livro ‘Portugal 12 Pts – Festival da Canção’ (em parceria com Jorge Magorrinha) e de outras obras de análise do repertório musical português.

"É inegável que o Festival precisava de uma nova orientação. Desde o final dos anos 90 que tinha deixado de ser um dos momentos mais importantes do cenário musical nacional. A mudança no certame foi pensado dentro da RTP, que percorreu a empresa de alto a baixo, voltando a valorizar e a colocar o Festival onde ele merecia - ao lado dos criadores de diversas áreas musicais que, de formas diferentes, dão cartas no Portugal contemporâneo. A ligação às redes sociais é também consequência do momento atual, que a RTP tem sabido gerir de forma inteligente - e que teve um papel essencial no sucesso destas três últimas edições e na vitória na Eurovisão em 2017."

A pausa em 2016, ano em que a RTP optou por não realizar o Festival, permitiu precisamente repensar e reposicionar o evento. "Houve dois curadores ligados à divulgação da música portuguesa que tiveram um papel determinante nesta nova fase - Henrique Amaro e Nuno Galopim - acentuando a sintonia do evento com o momento musical presente", acrescenta João Carlos Callixto.

E o presente ouve Conan Osíris. O nome artístico do músico Tiago Miranda veio do anime japonês ‘Conan, O Rapaz do Futuro’. Tem 30 anos, nasceu em Lisboa, mudou-se para o Cacém depois da morte do pai, quando tinha oito anos. Foi lá que conheceu, numa festa de passagem de ano, João Reis Moreira, o bailarino de 23 anos que o acompanha na sua performance.

A irmã mais velha de João era da mesma turma de Conan e simpatizaram um com o outro pela forma como ambos se expressavam a dançar música eletrónica. Aos sábados, a música era diferente. Amália, a dupla Leandro e Leonardo e kizomba era o que a mãe ouvia enquanto aspirava a casa.

A isto juntou Björk, a MTV, o hip-hop, mas só mais tarde começou a fazer música em casa. Canções que soltou na internet, com nomes tão particulares como ‘Adoro Bolos’, ‘Borrego’ ou ‘Celulite’. E ‘Telemóveis’: o representante de Portugal na Eurovisão que já leva mais de 2,8 milhões de visualizações online. Tudo nesta mescla traduz uma nova urbanidade e foi essencial para que Conan Osíris levasse ao festival "os elementos certos para surpreender quem nunca se tinha ainda deparado com a sua visão musical", refere Callixto.

Nos setores mais alternativos já era conhecido. Luís Ferreira, diretor artístico do festival Bons Sons, lembra o fenómeno a que assistiu ao vivo e a cores o ano passado, em Cem Soldos (Tomar). "Houve gente que veio ao festival só para o ver. Havia muita expectativa sobre a atuação, que foi a última. Correu muito bem e, no final, tivemos de fazer um cordão de proteção para ele sair. Havia raparigas a chorar. Nos bastidores, dizíamos que era o nosso ‘Beatle’."

O fenómeno, assegura Ferreira, é poderoso: "A primeira reação é não saber se aquilo é a brincar ou a sério, mas quando voltamos a olhar com atenção percebemos o subtexto, o conteúdo da mensagem. Depois a dança, o figurino, uma musicalidade que liga o tradicional ao novo e que é, sem dúvida, um novo movimento na música portuguesa. O Conan é muito honesto naquilo que são os seus contextos e referências. E as pessoas relacionam-se", diz.

Por isso, não estranha a vitória do músico: "O Festival da Canção só tinha duas opções: ou se abria a estes novos músicos e caminhos ou acabava. Precisava de voltar a ter este papel, ser produtor de cancioneiro e de artistas que mexem com as pessoas. Nessa lógica de maior dinâmica da RTP, de aproveitamento da força criativa e do envolvimento das pessoas, a vitória do Conan fez todo o sentido. Se era um fenómeno, agora generalizou-se", conclui Luís Ferreira.

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